Hoje é aniversário da Lais.
O que eu tenho a dizer pra ela? "Muitas felicidades, muitos anos de vida." Mais nada. Conheço pouco da Lais, suas vontades, sonhos, desejos. Sei que quer ser arquiteta, mas não sei se seu nome leva acento. Há cinco anos eu teria dito "Eu a amo, quero que ela seja muito feliz ao meu lado, etc, etc, etc." Hoje eu não a amo. Outro o faz e ele sabe seus sonhos, desejos, vontades. Sabe o que ela precisa pra ser feliz. É não saber isso que limita os meus parabéns que sim, são sinceros, mas limitados. Lais, eu não posso desejar nada muito específico a você.
Desejo então a mim. Esse texto é meu presente de aniversário. Ela comemora, eu recebo e espero que ambos saiam ganhando um pouco de felicidade em suas vidas. Nada muito certo, felicidade genérica. A felicidade de alegriamol.
Deixando a felicidade de lado, pergunto? Quem somos eu e Lais hoje? Antes se amavam e hoje nutrem um carinho enorme. Vêem-se pouco, não tem como saber quem é o outro.
Distanciaram-se
E se falam, às vezes, conversas vagas, e, raras vezes, conversas profundas.
O que leva pessoas tão próximas, tão íntimas a se distanciarem? Distância, tempo, falta de convivência... Nós mesmos.
Somos os culpados de nossas distâncias que hoje parecem inalcançáveis.
Não há interurbano para nossas almas.
Hoje foi aniversário da Laís
Quem será o de amanhã?
Aqui meus escritos sobre a passagem de Natal do ano de 2009.
Um bom ano.
Eu sempre fico receoso diante da tradição de festas. Já escrevi uma vez sobre o quanto fico desconcertado em meu aniversário. Talvez, no aniversário de um outro, minha visão distanciada permitiu uma análise mais profunda de uma festa.
A começar com muita gente desejando muitas coisas boas para o Natal, outros dizendo que devemos retomar o espírito da celebração e blá blá blá. Não acredito muito na sinceridade disso. A maioria das pessoas, eu espero, comemorou a moda humana de festejar, beber, estar com os amigos e parentes que não se vê muito... Um pré ano novo, como existe o pré carnaval, o esquenta a emenda do feriado... Nada de ruim nisso, eu adoro e pratico.
Minha festa foi composta por pessoas perdidas.
Tínhamos nos convivas meus pais, meu tio, eu e minha irmã. Minha prima, seu marido, sua filha e sua sogra surda a quem ninguém dava atenção. E mais o cachorro em busca de uns restos.
Às 22:00h jantamos, falamos de assuntos tristes (violência e atraso do país) enquanto um filme de guerra passava na tevê. Eu me perguntava o tempo todo o que pensava a senhora surda.
Minha mãe esqueceu de entregar o presente do meu pai. A criança ganhou seus devidos presentes. Niguém desejou feliz natal, brindou ou qualquer outra coisa.
Fomos embora por volta da uma da manhã e voltamos para o almoço que correu um pouco, se não melhor, mais sincero. Estávamos ali para comer o que sobrou da ceia. Passei a tarde conversando com a senhora surda por meio de papel e caneta.
Hoje um homem veio pedir comida na minha porta. Dei a ele um saco com alguns itens e ele agradeceu dizendo que Deus me trouxesse em dobro e me desejou feliz Natal.
(texto ainda não terminado, ou já terminado, não sei)
O autor tem passado por tempos reflexivos.
O meu período sabático.
Ou, para alguns, férias.
“…...” São os nomes dos atores/atrizes do elenco
(O público entra, senta e espera. Passado um tempo para causar certo incômodo, ouvem-se barulhos seguidos de murmúrio agitados nas coxias. Um ator entra no palco. Traz consigo sua mochila com figurino e objetos de cena e sua maleta de maquiagem)
Ator – Desculpem-nos pelo atraso. Nosso ônibus se perdeu na estrada. Os outros estão agora no camarim se aprontando. Como eles ainda vão demorar nisso e eu só entro lá pelo fim, me mandaram aqui para entretê-los. (larga suas coisas no palco. Via na coxia, pega um banco e uma cadeira. Começa a se arrumar, ação esta que se estende por toda fala.)
Hoje apresentaremos aqui o espetáculo “Um, nenhum, cem mil”, baseado no romance de mesmo nome de Luigi Pirandello. A obra foi indicação do nosso diretor porque queríamos falar de mudanças de referenciais, seja lá o que esse tema for, mas, para mim, a Cia se juntou mesmo por amizade. O ..... que era amigo de ….... , que já namorou a …. . Aí a gente se juntou. A peça fala de um homem que descobre que cada pessoa o enxerga de uma maneira... Pontos de vista!... E que ele nunca pode saber como é que é visto pelos outros, por fora, assim. (Pausa). To entregando a peça... Ok, vou falar para vocês então um trecho do Fernando Pessoa que muito me encantou durante o processo...
(A fala lhe é difícil. Ele demora um pouco pra começar, fica nervoso, titubeia. Por fim, com muito esforço consegue falar tudo)
“Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos, porque o mais, por estar realizado, pertence ao mundo e a toda a gente.”
Não? Vocês estão com uma cara nada boa. Talvez eu devesse fazer vocês rirem. Geralmente, esses prólogos para distrair o público devem ser feitos por um ator bom em “stand-up comedy”... Não sou muito bom nisso, aliás, nunca me achei um bom ator. Na minha cia eu geralmente entro nos 20 minutos de peça, volto nos 40. e fico ajudando o restante do pessoal nas coxias. Não que isso seja ruim, mas o é quando “te mandam” fazê-lo. Não ter opção é uma merda porque você acaba topando tudo que aparece. Como essa peça, por exemplo. Queria mesmo era fazer um espetáculo sobre o voo das borboletas, mas o elenco achou besta, o diretor riu de mim e minha namorada me largou. (Ele já está pronto. Encara o público por uns instantes. Pega suas coisas e sai pelo lado oposto que entrou. Nessa noite, o elenco representa a peça sem ele)
"Nem tudo que passa na sua cabeça é uma idéia"
Enquanto a Cia de Teatro Acidental viajava para uma apresentação, essa foi a orientação dada (seguida de risos) pelo... orientador da viagem.
Quando passavamos por alguma cidade no meio da estrada, nosso bom moço cruzou o corredor em direção ao banheiro. O Chico, que estava nas poltronas ao lado, foi o primeiro a notar que o odor de urina, pinho, naftalina e componentes que deixariam a indústria química orgulhosa, rapidamente mudava para o da citada erva. Depois dele, nós, um pouco a frente, e os mais adiante, até que todos os acordados mostrassem, com suas cabecinhas erguidas, a sua reação.
Protestos de um lado, compreensão de outro; uns diziam que deveríamos falar com ele. Minutos depois, ele saiu, passou por nós e voltou para a cabine com o motorista.
Foi a Pâm quem recordou a todos que talvez ele falasse sério quando deu a orientação sobre o fumar e que para muitos outros grupos aquela indicação era muito bem vinda. "Nós somos os ETs".
Eu a ouvi e voltei para minha conversa.
Hoje o episódio do ônibus voltou a minha cabeça.
Pensei naqueles amigos do ônibus que reagiram ao ato do rapaz, alguns fumantes também, mas todos meio bobos quando juntos de modo que todos acabam parecendo um bando de carolas. Sem falsos moralismos, apenas não somos a turminha da maconha, das viagens criativas com bala, ácido, e produtos que deixariam a indústria química orgulhosa. E senti saudade deles. Será que depois de sair da bolha universitária haverá a turma dos carolas?